quarta-feira, 23 de abril de 2014

Trauer

a vulgaridade de existir me golpeia com violência
os punhos cerrados
o ódio é tamanho que seus dentes se desmancham
em branco farelo de osso podre
rangendo, rangendo
enquanto deforma meu rosto, impacto após impacto
estraçalha o nariz, afunda o queixo
transforma o que eu era num retrato surreal
derretido, disforme, irreconhecível
foda-se, a vida é indiferente
pra quê resistir?
a dor já não existe, apenas dormência
que sobe devagar, penetra a sola do pé
transforma meu sangue em leite azedo
e me dissolve em água salgada com a alvorada
num quarto que não é meu
com lencóis puros e uma colcha cínica
como se nunca o tivesse aquecido
o quarto não é de ninguém
já não tenho cabeça
saio com tronco e membros pela manhã plúmbea
dormir não é opção
sinto pena e asco dos idiotas que nunca foram decepados
que caminham orgulhosos com suas cabeças
ostentando felicidade
fingidos, hipócritas
nunca se é feliz no presente
o futuro só guarda ansiedade
o máximo de felicidade é a saudade


terça-feira, 30 de julho de 2013

Lisboa

subidas e descidas
à toa
preguiçosa, cheia de vida
a dor do fado
e sua loa
o tempo parado
na melodia de Pessoa
meu coração agitado
tremor, terror, amor
a terra se abre em
fendas e abismos
agonias e sorrisos
inferno ou paraíso?
azulejos
nas falésias do risco
em tuas ladeiras, Lisboa
os novos cariocas
te podem curtir numa boa

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Marrocos

Marrocos é verde com pitadas de açafrão, sal e areia
com montanhas traçadas por delicados pincéis e tintas naturais
Marrocos tem cor de barro, casas temperadas por segredos anciãos
gente que ri um sorriso aberto, carentes de ossos sãos
que sente mais prazer em negociar que vender
Marrocos tem comida simples com sabores sofisticados
dias de sol branco e teimoso, noites de estrelas e esmeraldas
Marrocos cura almas enfermas, cuida de corações partidos
e dá sombra para a dor de amores perdidos
Marrocos é mediterrânico, atlântico e desértico
Marrocos é oásis dos andarilhos sem norte
a melodia da rua, o chamado de Meca
o pescado frito, o pão rústico, o chá de menta
um pouco do que sou hoje

terça-feira, 27 de novembro de 2012

bolinhos

todo o cuidado
para mimar sem exageros
quanto zelo
para que cada um sorria
barrigas cheias de amor
o ardor da maternidade
queima mais que brasa
os bolinhos podiam ser de chuva
mas tinham gosto de sol

sábado, 21 de abril de 2012

penatecla

sofro por antecedência
da decrepitude que ainda não assolou meu corpo
este invólucro que dá seus primeiros sinais de fadiga
cabelo cai. pele se maracuja. olho cansa. músculo se contrai
morro de saudades do que fui, do que sou e do que nunca serei
pranteio os mares que não desbravarei
livros, versos, melodias que não criarei
ah, as mulheres que jamais cairão em meus braços
anseio, peno, carrego, alego, me entrego
ai de mim
quanta pena cai desta pena que nem pena é
é tecla sem alma que não acalma
não acalanta, não amansa, não dança

terça-feira, 13 de setembro de 2011

toque de chefe

a dor forma
e fermenta a massa
no forno do meu peito
onde queima
este coração amorfo