segunda-feira, 27 de outubro de 2008

esperança

uma leve brisa invade o quarto
fico deitado, os olhos fechados
milênios se passam em poucos segundos
não sei de onde vem nem porque me aflige
uma estranha sensação de esperança

que se vai

terça-feira, 21 de outubro de 2008

CCM

dedos que dançam
mãos que flutuam
elegantes
sobre teclas de marfim
me pergunto onde acaba o piano
e onde começa o pianista

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

dias

não gosto de dias ensolarados
aqueles dias perfeitos e azuis
quando não há nem sinal de nuvens no céu
não suporto o cantar histérico dos pássaros
essa alegria que irradia em dias de sol
esses dias me deixam nervoso
quando surge um sorriso de canto de boca
me controlo e volto a fechar o cenho
porque em dias assim tão perfeitos
não consigo fugir da idéia de que
o único horizonte é a chuva
e mais hora, menos hora, ela há de chegar

prefiro os dias cinzentos
principalmente os de cor de chumbo
quando o céu está a um palmo de
desabar sobre nossas cabeças
quando os pássaros escondem suas vozes
e a chuva é tão forte que não podemos
ver o que se passa a dez metros da janela
adoro essa ausência de risinhos fáceis
de "nossa, que dia lindo" ou "a praia tá ótima"
em dias assim, abro um sorriso largo, gargalho
porque sei que não há como escurecer ainda mais
e que o único horizonte são lindos dias de sol

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

a musa e o idiota

PARTE I – o roubo

O verbo certo é roubar
Não há dúvidas de que se trata de um assalto descarado
Foi silencioso, mas foi um crime
Um furto à moda antiga, sorrateiro, manso
Ninguém viu nada, não há testemunhas
Ela surgiu de lugar nenhum para inundar tudo.
Ela e seu cabelo de violino. Ela o roubou
Um dia ele estava bem. Estava ótimo! Ó-TI-MO.

PARTE II – o branco

Até que ele a viu
Aí tudo desmoronou
Nesse exato instante ele sentiu que perdera algo
Era um assalto
Ela. Sensível, frágil. Sua pele era alva
Imperceptível para muitos entre a manada de pessoas no pátio
Ela. Com seu andar calmo e assustado ao mesmo tempo
Era quase imperceptível.
Mas não pare ele. Ele só via aquela menina branquela. Mais nada
Ela emanava uma luz branca que cegava tudo ao seu redor
Ela era tudo o que ele via
No outro dia ele não estava tão bem. Estava em frangalhos! FRAN-GA-LHOS.

PARTE III – o bloqueio

Do nada, ela se tornou sua musa. Ela tinha-o roubado
Ele não era mais dele. Ele mantinha uma relação perfeita com ela
É incrível como nunca brigaram em dois meses.
Tudo bem que ela ainda não o conhecia, por se tratar de algo platônico
Mas dois meses sem brigar em um relacionamento já é alguma coisa, não?
Até que um dia ela surgiu na sua frente. O branco absoluto, mais uma vez
“blah blah…. Blah blah blah… blah…”
“hum?” ela havia falado com ele. Obviamente, ele não ouvira nada.
“muito bom esse livro. Essa coleção é ótima”
“hã, ah, hum... é mesmo e o bom é que é baratinho” 
Meu Deus. Ele era estúpido
Finalmente ele ouvia sua voz. Após imaginar como ela soaria em seus tímpanos por tantos meses. Ela elogia seu livro. Uma coleção de poemas da Emily Dickinson.
Além da pele alva, o cabelo de violino leve como pena, o andar calmo e assustado, os olhos de cor-da-manhã-na-varanda-de-casa-de-campo, ah, tinha esquecido dos olhos de cor-da-manhã-na-varanda-de-casa-de-campo. Além disso tudo, ela conhecia e gostava de Emily Dickinson.
Era o momento perfeito para ela descobrir o quanto ele era um cara interessante, que curtia poesia, sei lá, qualquer coisa que transparecesse o quanto ele era bacana.
Sim, ele era bacana. Mas também um completo idiota.
“hã, ah, hum... é mesmo e o bom é que é baratinho”
Pronto, agora ela achava que ele só lia livros que fossem baratos
“pseudo-intelectual e pão duro”, ela deve ter pensado


PARTE IV – o som

Como um adolescente, ele passou horas matutando o que poderia ter dito
Mas não adiantava mais nada. O tempo era o passado. E seu passado fora idiota
Mas ele tomou coragem e voltou a falar com ela
Ele sabia que as pessoas não podem esperar uma segunda chance
Elas devem fazer suas próprias segundas, terceiras, quartas chances
Por mais inúteis e infrutíferas que elas sejam.
Pronto. Ele respirou fundo. E falou. Talvez ela tenha percebido que ele era um cara bacana dessa vez. Mesmo com as falhas de raciocínio devido à luz branca que o atingia na retina
E foi só. Trocaram e-mails, acenos, mas creio que ele não emanava nenhum tipo de luz para ela. Era opaco para os olhos de cor-da-manhã-na-varanda-de-casa-de-campo
Ele não acredita que algum dia iluminará a menina do andar calmo e assustado
É. Tá bom. Ela é mais do que um cara bacana como ele pode almejar em seu sonho mais irreal
Ela continua inalcançável, mas ao menos sabe que ele existe
Ele se contenta com isso. Com um aceno de mão. Um sorriso curto e um gesto de pescoço
Hoje, em seu corpo, quem dita o ritmo é o som da pulsação das mais belas notas de um acordeão vermelho

cidade

estou sensível a tudo ao meu redor
tantas imagens, luzes, sons me causam torpor
vivo em um mar de concreto abstrato e sem valor
as pernas pesam, a voz não sai, sou cada vez menor

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

dezembro

c'est une mémoire de décembre
le problem n'était pas le froid de moins zéro
mais le froid de ton regard

que disait:

"c'est fini, connard. À bientôt"

sábado, 4 de outubro de 2008

fevereiro

E eu que gosto de samba mas não sei sambar
não pulo atrás de bloco, não espero pelo carnaval
nem pelas ilusões de fevereiro
tomo as dores do mundo inteiro

na boca, o gosto amargo de um tom menor
na rua, mesmo na multidão, só.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

sobre traças e palavras

achei traças no meu dicionário
no início, fiquei preocupado
o que seriam das palavras?
afinal, uma língua toda
estava prestes a ser devorada
queria matar as danadinhas
mas se não tenho coragem de pisar
nem em formigas
quanto mais em traças
foi quando me veio a revelação
esses bichinhos se alimentavam

de palavras


o mundo não seria melhor se todos nos alimentássemos de palavras?