quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

ceia



"e como se chama esse mês que está entre dezembro e janeiro?" (Pablo Neruda)


todos se reuniam ao redor da mesa
não importava se era alegria genuína
ou aquele sentimentalismo hipócrita de natal
a euforia era contagiante
quatro gerações se lambuzavam com pernil e leitoa
e eu, assustado, não podia deixar de notar
o quanto meus avós tinham diminuído

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

hexa

quando caiu a noite no céu
seis estrelas brilhavam em seu peito
o universo explodia em vermelho e preto

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

#2

virei as costas pro conforto
abri todas as portas
encarei o mundo
era assustador

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

xis tudo

amanhece
na esquina da Machado de Assis
fazemos o desjejum
gorduroso, duvidoso
como se fosse o último
cúmplices
nos espiam o sol e a lua
lembramos da noite
ordinária como tantas
pelos menos rimos da vida
ou era a vida quem ria de nós?

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

#1

versinhos soltos
me cutucam
tô de preguiça
me finjo de morto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

do senso de humor divino

era só o que faltava
um fio de cabelo branco
na cabeça já calva

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

apagão

velas aromatizadas queimam
lentamente
e sombras sinistras
dançam pelas paredes
o suor escorre
implacável
nos corpos quentes
lembro-me de como era divertido
quando era menino e a luz faltava
e eu faltava de carona
(absorto em devaneios infanto-existenciais)
enquanto tenho delírios
com ares-condicionados e água gelada

sábado, 7 de novembro de 2009

hoje

lindo seria
se não fosse blue
esse dia azul

terça-feira, 3 de novembro de 2009

03:59

avança a madrugada
sono não chega
mosquitos fazem seus passeios alados
e barulhentos
permito que vivam
são companhia
assim como um papel em branco

súbita mudança de humor

mosquitos esmagados
poema escrito
silêncio

terça-feira, 27 de outubro de 2009

outubro

em plena primavera
já é horário de verão
mais passarinhos cantam
mais mosquitos entram pela janela
sem qualquer cerimônia
e ajudam a insônia com o zumbido
certeiro
na orelha descoberta

as árvores florescem
e a chuva não dá trégua
em outubro,
dá vontade de vestir
aquele casaco bissexto
e sair, altivo e destemido, com um cachecol colorido

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

poeminha disléxico

para Alice Sant'Anna (co-autora)

tô na chuva,
vou abraçar o cavalo
é o pulo do gato
é o gato na chuva
de canivetes

terça-feira, 13 de outubro de 2009

poesia entre quatro linhas

quis escrever algo em homenagem ao futebol,
mas logo notei a inutilidade de tal tarefa.
um drible desconcertante de Garrincha ou Ronaldinho,
um passe elegante de Didi ou Zidane,
uma falta magistral de Zico ou Pet,
e um arremate esplendoroso de Pelé ou Romário,
já são, por natureza, pura poesia.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

corredor

onde habitam os fantasmas
ou só de passagem

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

uma coisa ou outra sobre o poeta

o poeta não possui o reconhecimento do romancista
nem o charme do cronista
muito menos o glamour do autor best-seller
ele vive no e do limite
suas palavras estão na e são a beira do abismo
sua escrita é forjada por urgência

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sobre solidão, justiça e video-game

Seria necessário abrir mão de um vasto leque de onomatopeias para se ter uma rasa ideia da miscelânia de sons percurssivos que os ágeis e pequenos dedinhos de oito anos faziam ao teclar o video-game portátil. Enquanto caminhavam em direção ao estacionamento, Lucas setenciou aos pais: "vou voltar com meu tio". O tio, saudoso do sobrinho que mora em outro estado, ficou todo satisfeito, afinal, seria um momento para jogar papo fora com Lucas, que tinha passado parte de sua criação, até os seis anos de idade, em sua casa. Logo, era como um irmão caçula.

Após os cuidados de praxe (banco de trás, sinto de segurança e trava na porta), iniciou-se o percurso de volta para casa. Quando ia puxar um assunto, o tio foi logo cortado, pois aquele era um momento decisivo contra o 19º chefão do 8º mundo do "Fatal Metal Street Killer Mega Blast Explosive Revolution 4 - Collector's Edition". Cabisbaixo, o tio se dá por vencido e liga o rádio. Já perto do fim do trajeto, percebe que os efeitos polifônicos do Nintendo DS cessaram. Surpreso, indaga:

- Já enjoou do jogo?

- Não, a bateria acabou.

- Ah, entendi.

Após alguns segundos de silêncio, o sobrinho questiona com voz angustiada:

- Tio, é verdade que um dia o sol vai morrer?

- É sim Lucas, o sol é uma estrela gigante que um dia vai se apagar. Mas por que essa pergunta?

- É que a tia falou disso na escola e falaram a mesma coisa no Discovery Kids. Poxa, mas não é justo.

- O que?

- O sol morrer.

- Por que? Não precisa se preocupar, não estaremos mais vivos até lá.

- Não é isso. Se o sol morrer, quem vai fazer companhia pra lua? Ela vai ficar sozinha, não é justo.

Após ouvir essa sentença, o tio deu um sorriso agridoce e não comentou mais nada. "É, pode se acostumar, Lucas, nada no mundo é justo", escondeu em pensamentos. Haverá tempo de sobra para o sobrinho perder a ingenuidade. Mas não agora.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

o segredo do poeta

a caneta do Quintana era de uma tal leveza...
devia se tratar de pena de anjo

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

AVC

atacaram vovó covardemente

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A hora

chega uma hora na vida
em que devemos tomar ações,
não lições.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

romance moderno

Era uma vez...
Fim.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

sala

ambiente ancestral de reuniões familiares
conversas, festas, jantares, confraternização
hoje, altar de adoração da televisão
silêncio, novelas, jogos, amenidades, isolamento

domingo, 26 de julho de 2009

chuveiro

espaço mais democrático para os cantores frustrados

segunda-feira, 20 de julho de 2009

sobre o passar dos anos

ao decorrer da infância
brincamos
durante a adolescência
temos certeza de tudo
na vida adulta
não sabemos de nada

quinta-feira, 16 de julho de 2009

auto-crítica

quanto mais leio
menos considero-me escritor
quanto mais ouço
menos considero-me compositor
quanto mais escrevo e componho
mais sinto-me completo

sexta-feira, 5 de junho de 2009

às vezes

às vezes,
a necessidade de escrever 
é tamanha
que rabiscam-se 
palavras 
no papel
mesmo que, 
às vezes,
não se tenha nada 
a dizer

quinta-feira, 28 de maio de 2009

pasa nada

yo estaba perdido
buscaba palabras para mi poesía
notas para mi canción
estrellas para mi cielo

tú has dicho: "no pasa nada, chico"
solo eso, nada más
y de alguna manera, todo estaba bien otra vez

terça-feira, 19 de maio de 2009

inspiração

sentia que a qualquer instante
idéias incríveis iriam irromper
a sensação de criação me tomava por completo
era apenas questão de tempo
para palavras inspiradas atingirem o papel
leves ou densas, irônicas ou tristes, porém brilhantes
não restava dúvidas quanto a isso
afinal, qual é a dificuldade em escrever?
não se trata apenas de um ser humano, um papel e uma caneta, ora bolas?
tomei um banho caprichado, escovei os dentes, vesti minhas melhores roupas, me perfumei
e me penteei com esmero
por falta d'um sapato, calcei meu tênis mais elegante e fui a uma papelaria
comprei um pequeno caderno sem linhas pra não limitar minha imaginação
comprei o lápis mais caro, pois poesia que é boa não usa lápis gasto nem caneta bic
e não comprei borracha, pois quem sabe mesmo escrever, não erra
só faltava a inspiração
sofria a cada dia em que ficava na varanda a esperá-la e ela não vinha
meus amigos diziam:

"lápis e papel? Isso não existe mais não.
procura na internet que talvez você ache inspiração pra baixar"

então era isso, um pequeno problema de meios
joguei meus apetrechos de poeta em formação na lixeira e
adquiri celular, notebook e computador de última geração
sentei em frente a tela e aqueci os dedos
meu poema era iminente
procurei inspiração no google e nada
depois de uma semana,
quando todo meu aparato eletrônico recém comprado tornou-se obsoleto
desisti de escrever
criei um blog

algo me diz que os escritores de hoje copiam tudo do wikipédia

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

do pouco que vivi
de quase nada que sei ou aprendi
uma coisa me apavora
a arbitrariedade que parece
reger o universo

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

réveillon em madrid

vi os fogos de artifício
as luzes que explodiam no céu gélido
ouvi as risadas
e as cantorias de celebração
vozes de múltiplos sotaques e variadas línguas
presenciei os abraços, os beijos
irreverentes cumprimentos
Puerta del Sol era um bolo de gente
urrando de prazer
estouravam bombas
e garrafas de champanha para anunciar
mais um ano
que terá muita sujeira
e, talvez, se tivermos alguma sorte, algo de belo
tudo era alegria e diversão
mas nada me tira da cabeça
que era apenas fingimento