quarta-feira, 23 de abril de 2014

Trauer

a vulgaridade de existir me golpeia com violência
os punhos cerrados
o ódio é tamanho que seus dentes se desmancham
em branco farelo de osso podre
rangendo, rangendo
enquanto deforma meu rosto, impacto após impacto
estraçalha o nariz, afunda o queixo
transforma o que eu era num retrato surreal
derretido, disforme, irreconhecível
foda-se, a vida é indiferente
pra quê resistir?
a dor já não existe, apenas dormência
que sobe devagar, penetra a sola do pé
transforma meu sangue em leite azedo
e me dissolve em água salgada com a alvorada
num quarto que não é meu
com lencóis puros e uma colcha cínica
como se nunca o tivesse aquecido
o quarto não é de ninguém
já não tenho cabeça
saio com tronco e membros pela manhã plúmbea
dormir não é opção
sinto pena e asco dos idiotas que nunca foram decepados
que caminham orgulhosos com suas cabeças
ostentando felicidade
fingidos, hipócritas
nunca se é feliz no presente
o futuro só guarda ansiedade
o máximo de felicidade é a saudade